Dia do evento
28 de fevereiro 2007 às 12:02
compartilhar

 “O projeto da biblioteca na parada de ônibus é simples. Mas dá trabalho. Passei dois anos pesquisando, estudando uma maneira de viabilizá-lo. A idéia veio de um estudo de filosofia, da sociedade conscienciosa, da anarquia - que é mal interpretada. As pessoas associam anarquia à baderna, e não era esse o sentido da proposta. O sentido era de que o estado seria ausente porque não seria necessária a sua regulação social. O cidadão seria tão consciente de seu papel, de seus deveres, que aqueles que não se adequassem ao comportamento da sociedade se retirariam dela por vontade própria. Segundo estudos da sociologia, seria um comportamento por constrangimento. O exemplo mais famoso é o do sujeito que usa o banheiro da rodoviária deixando-o imundo e, quando chega a um shopping, esse mesmo sujeito muda o jeito de usar o banheiro, sendo mais cuidadoso, não deixando papel no chão, zelando pelo ambiente. As pessoas precisam ver que sempre alguém passa, arruma, organiza, cuida, e isso muda a postura das próprias pessoas.”


Dividido em etapas, é o próprio Luiz quem faz questão de acompanhar cada uma delas. “Aceitamos qualquer tipo de livro por doação. Carimbamos todos eles para identificá-los. Colocamos um folheto com o regulamento dentro de cada um, com instruções que ficam também coladas nas próprias estantes. Temos um acervo que vamos revezando. Separamos os livros que ficam na biblioteca e os que vão para as paradas, sempre fazendo um rodízio entre eles. Arrumamos as estantes, recolhemos os que sobraram, colocamos novos e fazemos o acompanhamento com uma ronda.”

 

 A primeira biblioteca foi instalada numa parada de ônibus na W3 Norte em junho de 2007. Luiz imaginava que só conseguiria implantar a segunda biblioteca em outra parada de ônibus 6 meses depois. “Eu ficava o dia inteiro na parada conversando com as pessoas, explicando como funcionava, arrumando os livros, para poder ver como elas reagiam. A aceitação foi tão mais rápida do que eu esperava que, em 6 meses, 10 bibliotecas funcionavam na W3 Norte. Hoje, quando o projeto completa um ano, temos bibliotecas em todas as paradas dessa via.”

“As pessoas previam tragédias que inviabilizariam o projeto: ‘vão queimar os livros, vão rasgar tudo, vão roubar as estantes, a chuva vai molhar e estragar os livros, ninguém vai devolver o que levar para casa’. Nada disso aconteceu. Agora falam que só funciona porque é em Brasília, que em outro lugar não ia dar certo. Não acredito nisso. O ser humano é igual em qualquer lugar do mundo, a essência é a mesma. A natureza não fez ninguém especial, diferente. Somos todos iguais, nascemos, adoecemos, crescemos, morremos. Seja no Tibete, em Brasília, no norte da Europa, na África, o homem entende um sorriso, um abraço, as pessoas se comunicam mesmo sem falar a mesma língua. O sol queima da mesma maneira o Bill Gates e um mendigo, não há distinção entre eles na essência. É um projeto simples, pode ser feito em qualquer lugar, por qualquer pessoa. Já chamou a atenção até em outros países. Uma consultora da Espanha vem conhecer para tentar replicar na União Européia. A Secretaria de Cultura do GDF pediu autorização para replicar o projeto nas estações do metrô. Nas cidades satélites já tem gente montando o projeto nas paradas e isso é muito bom, está irradiando. Depois que alguém já fez e as pessoas vêem funcionando, se sentem estimuladas a fazerem também, não ficam presas ao ‘não vai dar certo’ e decidem tentar.”